Há grávidas tão pouco sensíveis. A minha melhor amiga está a passar há mais de dois anos por uma dificuldade em engravidar. Não posso falar de infertilidade, pois apesar de há dois anos fazer exames e mais exames e consultar especialistas, o seu problema ainda não foi identificado. E ela chegou agora à beira do abismo. Ainda por cima o resto da sua vida também não tem sido fácil e agora toda a gente a sua volta está grávida.
Apesar de todos saberem do seu desespero, estas grávidas não se abstêm de partilhar com ela «ai nem imaginas o quanto é especial sentires vida a crescer dentro de ti», «ai sabes o bebé mostrou a carinha na ecografia», «ai o Miguel deu mais um pontapé», etc. Cada frase destas é como uma facada para ela.
Apesar de estar a viver uma fase que gosto de partilhar com as minhas amigas, abstenho-me de falar com ela, em pormenores. Já dei o recado e responderam-me que ela estava a ser egoísta de se sentir mal pela felicidade dos outros e que se fosse a minha amiga iria partilhar da minha felicidade. Mas eu sei que ela está feliz, mas sei que a dor que lhe provoco insconscientemente é ainda maior, por isso não há necessidade. Quando me faz uma pergunta, respondo vagamente e só falamos do seu problema quando quer. Não acho que ela esteja a ser egoísta. Só acho que esteja a fazer o mais certo. Se calhar porque já passei pelo mesmo.
Como li recentemente «O mal é a incapacidade de nos pormos no lugar do outro. É a incapacidade de imaginar os sentimentos do outro e de os sentir como se pudéssemos ser nós.» E esta frase aplica-se a tantas áreas das nossas vidas. Se mais gente conseguisse fazer mais pequenos sacrifícios em nome dos outros, não olhando tanto para o próprio umbigo, a vida seria mais fácil e não teria agora uma grande amiga à beira da depressão...










