terça-feira, 3 de junho de 2014

Das aparências



Há gente obcecada em provar aos outros que vivem uma vida perfeita. Há pessoas com dificuldade em assumir o que está mal nas suas vidas. Não estou a criticar pessoas positivas, que não dão tanta importância a acontecimentos mais negativos.

Falo de pessoas, por exemplo, que escondem a todo o custo uma doença. Que se confinam em casa e vivem as suas mentiras para esconder que têm cancro. Como se fossem culpados do que lhe estivessem a acontecer. Conheço tantos casos assim. A minha mãe foi uma delas. Agora tenho uma amiga que está em casa de baixa por gravidez de risco mas finge que continua a trabalhar normalmente, não anunciou a gravidez a ninguém (só a uma pessoa e bastou). E vive uma ilusão, isola-se quando precisa de mais apoio Não consigo perceber. Esta gente age como se as outras pessoas lhes provocassem o mal. Ou será uma maneira de se proteger? Francamente não sei.

Mas o pior caso tem a ver com um casal conhecido (nunca tive grandes afinidades). Tiveram um filho e nasceu com uma deficiência grave. Nem quero imaginar a dor de ver nascer um filho enfermo. Mas tenho a certeza que eu seria uma leoa: protegê-lo e ensinar-lhe que todos os seres são únicos e donos dos seus destinos. Quando vejo um casal esconder o seu filho do mundo, mete-me nojo. Sim nojo. Sempre saíram de casa com o ovo tapado para ninguém os ver. Nunca levaram o miúdo a lado nenhum. O rapaz vive enclausurado pela vergonha dos pais. Se uma mãe e um pai sentem isso, como é que uma criança se desenvolve de forma saudável? como é que pode ser feliz se os pais não lhe dão apoio e confiança? Como? será que estas atitudes não podem ser consideradas maus-tratos?

9 comentários:

Formiguinha disse...

Parou tudo!!!!
Raramente comento blogues, mas agora tem que ser :-)!

1º Acho que estás a confundir as coisas, uma coisa é esconder algo (mais ou menos) privado, outra coisa é esconder um filho por vergonha.

2º Podem haver "n" razões para uma pessoa esconder um problema ou uma doença, até mesmo proteger os que os rodeiam... ou proteger-se a si de sentimentos de pena ou outros pré-conceitos menos bons.

3º Um diagnóstico estranho/ ameaça de aborto / gravidez de alto risco podem querer dizer que a mesma gravidez pode ser interrompida a qualquer momento; quanto menos pessoas souberem que ela existiu, menos vão saber que ela não vingou/ menos vão saber do imenso desgosto que se vive... Eu fiz o mesmo que a tua amiga, nem a família próxima sabia talvez por egoísmo, concerteza para me proteger do incerto.

4º Um filho, seja qual for a sua "tipologia" é sempre um filho e uma criança e, obviamente, terás sempre que os proteger das agressões do mundo exterior (que pode ser mau, duro e cruel para com quem é diferente), mas a forma mais eficiente de o fazeres é dando-lhe armas para viver com isso e proteger-se a si mesmo...

O que referes dos teus amigos é, efectivamente uma atitude asquerosa que muito vai prejudicar a criança que geraram... Não devia ser pais :(

Bêjos

Isa disse...

Muitas pessoas não contam que estão doentes porque não querem ter de responder as perguntas de terceiros, ou não querem que outras pessoas andem a falar deles. Não é por vergonha. É para preservação da sua intimidade. E se calhar esses pais não têm vergonha do filho, simplesmente não conseguem ainda lidar com os olhares e perguntas das pessoas (muitas vezes insensíveis quando acham que estão a ajudar !) e querem proteger-se a eles e ao filho de mais opiniões. Ainda há muita descriminação da deficiência! Cada pessoa tem a sua verdade e a sua forma de encarar os problemas, e de lidar com a pena dos outros...

Ju disse...

Concordo com todas as palavrinhas!

Jo disse...

No caso de uma doença do próprio ou de uma gravidez de alto risco, como aqui referiste, acho que é sobretudo uma tentativa de se protegerem. Sem querer comparar mas já comparando, como aquela coisa de se contar que se está grávida só depois de passar aquele tempo "mais complicado". Sei que não é a mesma coisa, que fingir que se continua a ir trabalhar enquanto se está de baixa, em casa, é diferente de não partilhar com o mundo que se eestá grávida no momento em que se descobre... mas acho que o princípio por trás disto tudo é muito semelhante: o tentar proteger-se... se correr mal não terá que lidar com a reacção dos outros. Não digo que é correcto - nem errado, cada um sabe de si... -, mas honestamente é o que me parece. A segunda questão que puseste, de se esconder um filho porque tem uma deficiência... parece-me que esses pais ainda estão a tentar lidar com a situação... e não o estão a conseguir fazer. Não sei que idade tem a criança, mas é o que me parece... Não estou aqui a julgá-los, quem sou eu...!, mas concordo contigo... Nunca poderão ensinar-lhe que é apenas diferente e especial se eles próprios têm vergonha (será de facto vergonha? ou não saber lidar com os olhares, comentários, perguntas, sussurros...? não sei... mesmo). Enfim, espero que encontrem alguém que os possa ajudar a aceitar tudo isso ou pelo menos a lidarem melhor com a situação e procurar desfrutar do filho ao máximo.

Maria João disse...

A minha mãe trabalhou anos com crianças e adultos deficientes.
Alguém esperar o nascimento de um filho e no parto descobrir que a criança é diferente, é muito difícil. Cada pessoa reage de forma diferente mas todos, todos os pais de crianças diferentes precisam de um tempo de aceitação, quer queiramos quer não, a pergunta é sempre a mesma. Porquê eu??? Só quando conseguirem encontrar um resposta e aceitar, conseguiram viver em paz com o mundo. Não escondem o filho, apenas dão tempo até estarem preparados. Quer queiramos quer não, esta criança será SEMPRE olhada como diferente e os pais Sofrem obviamente com isso.
Se me permites, acho que estás a ser demasiado dura com a dor desse casal.
bjs,
MJ
PS: não me leves a mal o comentário, mas infelizmente conheci muitos casos de pais de nova viagem a viver o drama desta realidade!

Dina disse...

Os vossos comentários fizeram-me pensar e concordo com vocês.

Quanto à criança ela é mais velha que o Simão. Deve estar a chegar aos 3 anos. Sei que pode ser difícil lidar com uma situação destas, mas desculpem a franqueza um pai tem que acordar e seguir em frente para o bem maior. 3 anos? uma criança que nunca foi inscrita na creche por causa disso? uma criança que não vai ao parque? uma criança que não vai às compras ao supermercado? Desculpem mas acho demasiado. Um deficiente deve aprender a lidar com os outros, a diferença, a dor,desde o início. E os pais devem ser o seu maior apoio. Mas pronto, sou eu que acho que eles precisam de um abanão sério. Não quero de todo ser insensível

Jo disse...

Dina, concordo plenamente contigo. Realmente 3 anos já é bastante tempo. Acho que seria bastante benéfico para a criança que os pais conseguissem de alguma forma aceitar a situação, ou pelo menos lidar melhor com ela... Enfim, esperemos que consigam encontrar a força necessária para tal ou para procurar algum tipo de ajuda...

Cantinho da Bê disse...

Quanto a estar doente, posso falar por mim que, penso que sabes, tenho um problema de saúde que já me levou algumas vezes à mesa de operações. Não sou das que se esconde, ou que não conta a ninguém, mas sou das que desdramatiza e descomplica, mesmo que esteja cheia de medo. Apenas porque não quero assustar ninguém à minha volta.
Quanto ao casal que conheces...nem sei o que te diga. Faço trablaho voluntário num lar/centro de dia, onde estão muitas pessoas, já adultas, portadoras de deficiência e vejo-as como anjos na minha vida. Não consigo imaginar a dor que seria se algum deles fosse rejeitado ou escondido. São, normalmente, mais novos do que os idosos que lá andam e fazem-lhes imensa companhia.

me disse...

Concordo com os comentários acima. Há pessoas muito mesquinhas que só querem saber das tristezas dos outros porque sim e não porque querem ajudar. Por isso é natural que as pessoas não contem a todo o "mundo", porque querem se proteger...cada um é que sabe de si. Felizmente nunca tive que passar por nenhuma das situações que descreveste...mas já omiti muita coisa para me salvaguardar de comentários menos próprios de familiares, amigos e conhecidos.