segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Altos e baixos amorosos

"era a vida real e se não era tão curiosa ou apaixonada como fora outrora, era apenas por ser inevitável. Aos trinta e oito anos seria desapropriado, indigno, conduzir amizades ou amores com o ardor e a intensidade de alguém com vinte e dois. Apaixonar-se assim? Escrever poesia, chorar com canções pop? Arrastar pessoas para dentro de cabines de fotografia, passar um dia inteiro a fazer uma cassete de compilação, perguntar às pessoas se queriam ficar na nossa cama, só para fazer companhia? [...] Ridículo, aos trinta e oito anos, esperar que uma canção ou um livro ou um filme nos mudasse a vida. Não, tudo se nivelara e assentara e a vida era vivida sobre um pano de fundo geral de conforto, satisfação e familiaridade. Não haveria mais daqueles altos e baixos de arradar os nervos. Os amigos que tinham agora seriam os amigos que teriam dentro de cinco, dez, vinte anos. Não esperavam tornar-se dramaticamente ricos nem pobres; esperavam manter-se com saúde ainda durante muito tempo."                                 Um Dia |  David Nicholls


E eu pergunto-me: será que há várias maneiras de amar consoante a idade? Claramente que sim. Quem, como eu, está prestes a chegar aos trinta apercebe-se que a paixão dos vinte quase se perdeu. Deixamos de beijar a pessoa amada da mesma forma em público. É um amor mais recatado. Não significa que é menos forte. É apenas vivido de forma diferente. Não sei se as pessoas não seriam mais felizes se se soltassem mais, se vivessem sem pensar tanto no que os outros pensam. Mas a verdade é que de forma inconsciente as pessoas vão adequando-se à idade.

O conforto, a familaridade e a rotina passam a ser coisas boas, agradáveis. Um porto de abrigo. E imagino que quando chegar aos 60 anos esta sensação será ainda maior. Já não existem altos e baixos, aquelas preocupações diárias que vivem os apaixonados com 15/ 20anos. O pior é quando as pessoas procuram constantemente a sensação do amor adolescente numa relação madura. Ou então quando os parceiros se deixam comer pela rotina.

A vida é feita de equilíbrio e é na procura deste equilíbrio que reside o segredo da felicidade a dois...

10 comentários:

Opinante disse...

Chamo-lhe um estado de plenitude constante... :)

Alminhas disse...

Essa embriaguez dos sentidos, que o autor fala e que todos nós já sentimos um dia, chama-se paixão...depois a segurança, estabilidade, a rotina, chega com o Amor. Para mim onde existe amor, existirá sempre paixão... nem que seja por breves momentos. Já ao contrário, não acredito, pois nem sempre a paixão se transforma em Amor.
Por isso acho que não tem muito a ver com a idade, mas sim com o estado emocional em que nos encontramos... Se é Amor, ou Paixão:)

Cláudia disse...

Eu, certamente, que sou uma amante diferente agora da que era aos vinte anos. A postura, o recato, o saber-estar acabam por ser uma exigência da idade. Mas sim, certamente que isso não significa que se ame menos, apenas de forma diferente. Com outra segurança já que, também eu, vejo a rotina e conhecimento mútuo como uma mais-valia. Onde os silêncios deixam de ser desagradáveis e passam a ser cúmplices.

Sónia disse...

se nós vamos mudando com o tempo é normal que a nossa maneira de amar também vá mudando, mostra-se de maneira diferente, não significa que se ame menos!
Beijo

*C*inderela disse...

Exacto, tem que haver um equilibrio entre a rotina e os momentos de "adolescentes". É bom fugir de vez em quando à rotina :P

Bjokas

A Tulipa Azul disse...

Concordo contigo, mas é difícil, encontrar o equilíbrio:

FL disse...

Olá, pela primeira vez estou a escrever no teu blog apesar de já te ler há imenso tempo (muito antes de engravidares) e adorar as tuas palavras. Já li este post ontem e fiquei a matutar na questão. Eu aos 17 tive um amor, que não começou com paixão, que se alongou pelos anos em que os sentimentos começaram a se baralhar e que talvez a imaturidade não soube aclarar, aos 27 casei com essa pessoa e já fui tarde para perceber que já nem era amor nem paixão, e que era só um erro. Aos 30 apaixonei-me verdadeiramente, foi uma coisa que eu achava que só poderia aconetcer aos 18, e aos 30 veio dar-me forças para enfrentar tudo e todos, achava que tinha encontrado o homem da minha vida, com quem tive uma filha...o mesmo homem que me traiu e a dor me esmagou. Aos 36 comecei a namorar com o homem que agora estou certa ser o homem da minha vida, com quem a relação não começou por ser de paixão mas de amizade e depois de amor que cresce de dia para dia, e sou muito mais feliz hoje do que alguma vez fui, sem pressas, sem urgências, e mais sábia que aos 17 anos ou aos 30 anos.

Desculpa o desabafo, hoje apeteceu-me.

FL

Cris disse...

Imagina os 40s... não há garantias, nem certezas, nem patamares, é bom que se invista para que ao longo dos anos as vivências sirvam de sustentáculo à vida a dois. Se o encaixe existir, tudo (ou quase) faz sentido, até os silêncios.

Ana FVP disse...

"O conforto, a familaridade e a rotina passam a ser coisas boas"

Vou tão roubar este teu texto para o meu cantinho!!!!! LOL

Guinhas disse...

Acho que é crescimento, mutação,aprender a valorizar e saborear as coisas com o avançar do tempo.Acima de tudo, ter essa noção e transmiti-la como fizeste é o fulcral!Óptimo texo!