segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Um dos motivos de ausência


Ligo diariamente à minha mãe. É uma rotina antiga. E não abdico daqueles minutos. Prefiro poupar noutros sítios. Mas houve um dia na semana passada em que me apanhou numa situação complicada e lhe disse para ligar para a minha irmã porque ela é que tratava desses assuntos. Mais tarde voltei a ligar-lhe porque sentia a consciência pesada e encontrei a minha mãe em lágrimas. Fortes. Sentidas. Doridas.

Os meus pais tiveram quatro filhos. Todos em ocasiões da vida diferente. Uma logo no início de vida antes de emigrarem, o meu irmão já na fase da emigração, a minha irmã em 74 já em França depois de estabilizados e eu em 1983. Deram tudo a cada um, de acordo com a altura da vida. Admito que tive mais regalias porque nasci numa época mais serena em termos sociais e económicos. Mas sempre nos financiaram os estudos que quisemos, o tempo que quisemos. Nunca nos aceitaram uma moeda de contribuição em casa mesmo estando nós a trabalhar. Ajudaram sempre na compra de casa e de carro. Pagaram o casamento a todos. Pagaram sempre as despesas correntes a todos. Sempre ajudaram os netos. Com um ordenado de trolha e de horas de limpeza. Quando às vezes éramos mais de 15 em casa.

Sempre fizeram tudo por nós. E é consensual entre todos os filhos.

Mas agora o meu pai não está. A minha mãe está mais frágil e desamparada do que nunca. Nunca tratou de burocracia. Ela precisa de ajuda. A mim também me custa perder férias para ir às Finanças, gastar dinheiro em telefonemas para Conservatórias, em controlar facturas e contratos, etc. Mas faço-o porque ela merece. É um retribuir simples numa relação mútua de amor mãe-filha.

Agora pôr a minha mãe a chorar daquela forma por causa da merda de um papel e de um erro que o Serviço de Finanças francês fez. Nunca o hei-de admitir. Falar-lhe daquela forma. Foi a gota. A facada final. A minha pulsação parou uns segundos como se me tivessem anunciado a morte efectiva de uma pessoa. Mas fazer um funeral sem corpo presente dificulta sempre o luto, porque sabemos que poderemos encontrá-lo numa esquina a qualquer ocasião. Isso leva tempo a digerir.

Podem magoar-me mil vezes que eu posso estancar os golpes. Agora aos que amo, não. E se for injusto ainda menos. Uma mãe perdoa sempre. Mas um irmão não. A última gota de amor fraterno secou. Custa, mas já mais nada importa...

15 comentários:

Isabel Mendes disse...

A Família às vezes tem destas coisas, ainda são piores que os de fora, como se costuma dizer. E cada vez acredito mais nesta teoria.
Beijo grande
Isabel

Moa disse...

Eu sei o que é ter uma irmã complicada. Às vezes tb digo que é a ultima gota mas depois perdoo sempre, afinal é minha irmã. A tua, pelo que vais falando, tem estado mal mtas vezes...não é fácil. beijinhos

Lux disse...

UQerida, sou filha única por isso não tenho problemas com irmãos...
mas compreendo rudo o que dizees em relação à tua mãe.
Eu também prefiro que atirem as setas em direcção a mim que aos meus.
Só te posso desejar força para ajudares a tua mãe e ignora o resto.
Há pessoas que mesmo sendo do nosso sangue não merecem nada.

xoxo
Lux

Agridoce disse...

Muita força. Eu acredito que família não é família só porque sim. Família é família se o merecer ser. Um beijinho grande

Opinante disse...

São sempre chatas as confusões entre irmãos... também tenho um irmão, mas para já ainda não houve grandes conflitos, embora reconheça maneiras de educaçao bem diferentes... a ver vamos...

susiedesonho disse...

Compreendo o que dizes em relação à tua mãe. Ai daquele que ponha a minha mãe a sofrer! É uma pena que a relação com a tua irmã tenha de ser assim mas, enfim, é a vida. Talvez ela também precisa de amparo e como não sabe como fazê-lo, age desta forma para chamar a atenção. Não sei. isto sou eu a falar.
Força, Dina!

Bj,

Susie de Sonho.

Tsuri disse...

Acho que todos temos problemas com irmãos, acho que faz parte da natureza, mas a tua irmã de facto parece superar-se a cada aventura. Por vezes custa até acreditar... e são pessoas próximas, do nosso sangue e como tal magoa muito, ainda mais se o mal que fazem é a quem mais amamos.
Espero que superes rapidamente estas situações e que voltes rapidamente e bem.
Gere tudo com calma, sabedoria e a serenidade que é tão tua.
beijinhos

*B* disse...

[abraço apertado]

Liliana disse...

Beijoca de força e com carinho!

Me disse...

Um beijinho muito muito grande querida... e mereces muito mais do que isto que recebeste...

Isa disse...

Não há muito a dizer... Força e ânimo Dina...
Beijinhos

La Boheme disse...

Querida Dina,

Cada vez que leio posts destes até me arrepio porque como estou farta de dizer as tuas palavras podiam ser as minhas. Até nascemos no mesmo ano e eu também sou a mais nova das três filhas que os meus pais tiveram. Tal como disseste todas viemos em tempos diferentes da vida deles e confesso que talvez tenha sido mais privilegiada por ter sido a última e na altura por muito trabalharem e lutarem os meus pais já estavam numa melhor situação financeira. Também pagaram o casamento às minhas irmãs e elas tiveram uma coisa que eu nunca vou poder ter se eventualmente um dia me casar, o meu pai lá, presente a levar-me ao altar. E também eu cortei relações com a minha irmã mais velha por isso mesmo. Pelo desamparo em que deixou a minha mãe. Passam-se meses e não vê os netos. A minha mãe perdoa e relativiza, eu não e como já muitas vezes conversámos as duas, agora sem o meu pai, sou eu por ela e ela por mim, e mesmo sozinha tudo farei para que ela fique o melhor possível na solidão da sua viuvez. Desculpa o longo testamento mas tenho muita empatia pelo que escreves e sentes e como vês não estás sozinha:)
Beijinho grande

Dina disse...

La Boheme: acredita que às vezes preferiria estar sozinha: significaria que mais ninguém teria que viver com famílias problemáticas ;) Realmente as nossas histórias são tão semelhantes... Nem consigo dizer-te nada, porque nós sabemos que estas circuntâncias são tão difíceis... Um abraço cheio de força para ti!!

Guinhas disse...

Entendo perfeitamente o que dizes, embora eu não tenha problemas desses com minha irmã.

estrela disse...

sabes que há confusões em todas as familias não existe uma que possa dizer que é um conto de fadas!
com o tempo a coisa vai suavizar e resolver-se!
bjs